quinta-feira, 7 de junho de 2018

Favela Graduada




Favela Graduada
(Sandro Sussuarana)

Correr atrás da bola era brincadeira
Correr de bala não é brincadeira
É assim do subúrbio à Ribeira
Nossas vidas, vendidas
Pro lucro na vida de quem as tira
Comercializam nossos corpos
Pra burguesia se sentir melhor
Mais segura
É por isso que tantos corpos somem nas malas das viaturas
E os preto que não percebem isso
Deve ser porque acha que vai deixar de ser preto se ficar rico
Vai mudar de vida social, sim
Mas não vai deixar de ser um alvo de policial
Entende?
O racismo é sutil, silencioso
Mas ele tá sempre presente
E nem adianta achar que se o "governo" for de esquerda vai ser diferente
Não vai!
Tá implícito nas linhas da Constituição
Que diz que roubar é crime
Desde que você não seja do alto escalão nem branco
Porque a hipocrisia daqui rima com as mães do Cabula que estão em prantos
Porque não tem conforto que vá reparar todos esses corpos furados de bala
Não quero tapinhas nas costas, nem que venham me abraçar
Quero é que parem de nos matar
De justificar assassinato com tiro acidental
Porque na periferia pode, né? é normal.
Quando vamos parar de naturalizar essas coisas?
De assistir Bocão dizendo que só morre assim porque fez essa escolha!
Desgraça, quem escolhe morrer?
Cê acha que os pivete vai pra pista por que quer ou por que não têm o que comer?
Pare pra pensar e veja que na pirâmide econômica a gente é o corpo e não a ponta
Já passou da hora de a gente se informar
De entender que ser malandro mesmo é estudar
deixar os racistas com raiva e se formar
Esfregar o diploma na cara deles e gritar
Que a revolução não será com armas
Será com papel, caneta e a favela toda graduada!

Sandro Sussuarana é poeta, produtor cultural, professor de capoeira e idealizador do Sarau da Onça. Organizou e lançou os livros "O Diferencial da Favela: Poesias quebradas de Quebrada", "A Poesia Cria Asas", "O Diferencial da Favela: Poesias e contos de Quebrada", e "Verso (s) Sob (re) Mim", todos pela editora Galinha Pulando.

Cria de favela




Cria de favela
(Samuel Lima)

Denominação favela
onde nasci
cresci
e me criei
e só quem esteve do meu lado sabe
as dificuldades que eu passei.
Desde criança
o sistema vem tentando me destruir,
Estive entre a caneta e o fuzil
Pra decidir,
Mas graças aos ensinamentos da favela
A poesia chegou primeiro em mim
e até o sistema pira.
Eu já passei dos 18
Superando as estatísticas.
Tentaram me parar, mas se esqueceram
que sou descendente
de guerreiros e guerreiras
E podem até tentar
mas não vão me calar de nenhuma maneira.
Eu vou lutar
E vou mostrar que nós, pretos,
Chegamos pra revolucionar
e não vou descansar até que os meus tenham
Saúde,
Educação de qualidade
E acessos a boas faculdades.
Só vou me conformar
quando a formatura de pretos
forem maiores
do que a taxa de mortalidade.

Samuel Lima da Silva, do bairro Sussuarana, ou Staif, como é conhecido nas ruas, começou sua caminhada motivado a vencer o preconceito sofrido pela sua cor e por ser de periferia. Viu na poesia a melhor forma de protesto e de conseguir mudar algo, levando sua mensagem de resistência a cada canto da cidade.

Sem RG




Sem RG
(Rool Cerqueira

Os meninos não podem sair sem RG (2x)
Os fardado não alivia pra você (2x)
Não dá tempo de tirar o RG
A polícia em geral não quer saber
Se for preto, favelado, 23h o fardado não alivia pra você
Bora, bora, bora vagabundo, cadê a droga?”
É pode crê, tome baculejo, tome baculejo e uma broca pra aprender...
Que o seu filho não pode sair sem o RG
Extermínio da nossa raça 
Nos prende, nos xinga, nos mata 
Nas favelas jorra sangue de preto
E não é o filho do prefeito, muito menos do seu braço direito
É meu primo, meu vizinho
Que não tinha o passe pra preto
É tipo apartheid nego, hoje chamado de RG, eles só pedem pra mim e pra você
Nossa juventude se perde por estratégia estatal
Eles nos dão armas, colete à prova de bala, deixam passar a droga
Depois invadem com HK e ponto 40 jogando sua massa cefálica pra fora.
Armação!
Eles temem que o poder chegue em nossas mãos 
Não seremos massa de manobra
Tô logo avisando, não quero ver ninguém aqui fora da escola
Pegue o parceiro da erva... 
E queimando, o ensine a fazer poesia 
Nosso papel é esse e nem corra 
É atirar em disparada 
Com o pente carregando de palavra 
Na direção da burguesia!

Rool Cerqueira é integrante do Coletivo ZeferinaS. Poesia para ela é, para além de versos, a força que lhe mantém de pé, sua arma de combate ao sistema e o meio que expressa suas dores e também suas alegrias e é, também, o caminho para sua liberdade mental.

Reaja




Reaja

Revi e vi, que o gueto tá sinistro, mas desde o início sempre foi assim,
Nas ruas da nossa cidade não há segurança, quando não perdemos nossos jovens para a facção, perdemos para a violência policial

Só tá Morrendo preto, e o pior que quem mata é preto/fardado
Tô cansado de ver meu povo sofrer, eu tô cansado, cansado de ver tantas desigualdades sociais/raciais
Por isso estou aqui, mais um guerreiro do gueto, honrando o nome dos pretos que lutou por mim: Dona Ivone Lara, Dandara, Sabotage, Zumbi!

Mas na favela é mais fácil sucumbir, Se vacilar, o crime te abraça e te faz desistir.
As drogas te cercam e só te faz se iludir. Não deixe o crime te abraçar, abrace um livro e busque seu conhecimento.

Reaja
Que eu te ajudo a lutar; conhecimento é a chave para sua liberdade física e mental conquistar.
Vivemos numa escravidão maquiada! E pra vencermos essa luta tem que ser a mão armada, de caneta e papel!

Não sei quem mata mais, a fome? O fuzil? Ou ebola?
Quem sofre mais, as pretas daqui ou de Angola?
Sabotage deu a ideia!

Pare pra pensar nessa situação que já é normal, todo dia eu vejo preto sendo oprimido numa abordagem policial.
A rotina deles é abordar violentamente, diariamente, todo preto. Por que branco não sofre abordagem de rotina(2x)

O sistema nos oprime, é o mesmo que nos corrompe, que depois da lavagem cerebral, escorraça seus irmãos de cor, feito homem/animal raça anormal.
Chega de opressão policial!!

Rilton Junior (Poeta com P de Preto) é Pai, Agente Cultural, ator, arte-educador, apresentador do Slam da Raça, compõe o Grupo de Poesia Resistência Poética além de ser Intérprete de suas vivências. A Sua Poesia de Revolução Verbal dá voz a juventude preta soteropolitana, que há tempos vem sendo silenciada pela opressão institucional. Residente em Nova Brasília de Itapuã, o poeta relata as mazelas do gueto; é como um grito que soa das comunidades carentes de Salvador, contra a opressão racial, policial, o machismo imposto a todo homem negro pela busca de uma tal masculinidade, a intolerância religiosa, a desigualdade social, dentre tantas outras questões que atingem a população afrodescendente soteropolitana. Tem poemas publicados no Prêmio Galinha Pulando 2015 e na Antologia Literária Jovem Afro (Quilombhoje 2017).

Pátria




Pátria

Acordo cedo, me arrumo, me perfumo.
Passo na casa da vizinha, aonde eu sempre escuto uma piadinha.
Lá vai a bixa, o viado, o baixo-astral,
Mas eles esquecem que viado é animal
Oh mas não é o ser humano o bicho racional?
Que cria, inventa, canta e encanta,
Cria armas, inventa caixões para guardar as almas
Canta pátria amada, enquanto amor no Brasil é só uma fachada Encanta?
Só se for os pilantras
Que pegam, roubam e investem,
enquanto a melhoria na educação só prometem
No colégio? Tem cobra, ladrão e manifestação
No final, só fizemos passar na televisão, aonde a mídia, cria, aumenta e inventa
E a bancada do governo? Ela é quem sustenta,
com o 1,2,3 gravando os políticos continuam falando e falando,
enquanto nosso dinheiro diminuindo e eles?
Mais uma vez nos roubando e no final coloca o hino nacional
"Pátria amada, Brasil" enquanto a
Prata que aqui existiu, ninguém viu, sumiu.

Riick Lima (Rian Henrique Lima) se identifica como um poeta da quebrada. Sua poesia luta pelos seus direitos, em busca de quebrar tabus e preconceitos. Sua inserção no mundo poético foi iniciada em 2016, e as temáticas que aborda são várias, recorrentes, e dizem muito de sua identidade: negritude, homossexualidade e intolerância religiosa.

É daqui que vim




É daqui que vim

É daqui que vim, e com Fé em Deus não vou sair
Desce escada e entra em becos com garra para seguir
Desde cedo, fui ensinado a ter que dar duro enquanto meus amigo brincava e pulava muro
Mas esse suor, hoje me fez ser quem eu sou,
Tudo culpa do meu pai por eu ser um vencedor
E nesse mar, camarão que dorme a onda leva, e por falar em sono lembro da minha vea, que por mim colecionou muitas olheiras,
Esse verso também dedico a ti, velha guerreira.
Vivi em meio a crime, vi vários cair
E ainda hoje vejo vários se iludir.
Quase me iludi, mas o rap me salvou
Antes do crime, a poesia me abraçou
Me senti vivo
Passei me orgulhar
E hoje a Onça que é meu bom lugar.
Domingo, feriado
Cerveja, churrasco
De quina dando uns trago
Os pivete com rádio
Ligado em tudo, medindo cada passo,
Castelando
pronto pra trocar com os cara do outro lado.
Alguns encarcerado
Pela própria mente,
Mas sonhando em ter um futuro diferente.
Mas independente disso tudo
Sufoco, pipoco, os loko que tão solto
não tem paisagem mais bela do que as casa sem reboco...

Renildo Santos é poeta de rua e MC do grupo de rap In.Verso juntamente com Carlos Menezes (Aedo mc). Integrante da produção da batalha Pega Visão, Rimas de Esquina e do coletivo Pega Visão do bairro de Sussuarana, em parceria com o Sarau da Onça, na militância pelo povo preto periférico.

Lágrimas vazias


Lágrimas vazias
(Raymundo Costa Santana)

O menino chora luzes de um momento
Sentimento do passado sem asas
Sem teto
Sem voo
Do supremo estandarte da liberdade

O menino chora a magia da rua
O desmazelo da existência
O cupim da vida atormentando células
Destruindo as ondas vazias
Do mar que arqueja
A sonoridade da vida
Sem liberdade, sem fé
Sem anseios
Dos seios envelhecidos em sangue
Suor... E vazios!

Raymundo Costa Santana é antigo militante da Galeria 13 e do Movimento Poetas na Praça. Médico Pediatra apaixonado pela poesia, com sete livros publicados e 01 no prelo. Também um dos fundadores do Coletivo G13 Art&Poesia, é um dos grandes poetas declamadores da soterópolis.